segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Entidades advertem Record por perseguição a anunciantes

Por DANIEL CASTRO, em 23/12/2013 · Atualizado às 07h44
As duas principais entidades representativas dos anunciantes e das agências de publicidade do Brasil enviaram uma carta à Record em que advertem a emissora por usar o jornalismo para perseguir empresas que não anunciam na rede.

A ABA (Associação Brasileira de Anunciantes) e a Abap (Associação Brasileira das Agências de Publicidade) notificaram a Record de que "é preciso tomar muito cuidado para não ultrapassar o que é ético" no exercício do jornalismo crítico.

Segundo Rafael Sampaio, vice-presidente executivo da ABA, a carta foi encaminhada há um mês. Nela, as entidades relatam ter recebido reclamações de vários anunciantes que se sentem perseguidos por reportagens da emissora.  A carta, no entanto, não cita anunciantes, porque eles não pediram intervenção formalmente.

Como o Notícias da TV relatou na semana passada, a Record usa o seu departamento de jornalismo para atacar empresas que não anunciam na emissora.

O caso mais recente foi o do HSBC. O banco foi alvo de três grandes reportagens em novembro, que repetiam informações sobre investigações contra a instituição financeira nos Estados Unidos e na Europa. As denúncias só cessaram após o banco enviar um emissário para negociar com a Record. O HSBC não investiu um único centavo em publicidade na Record neste ano.

Antes do HSBC, foram vítimas do jornalismo da Record a Coca-Cola, o Santander, o Itaú, o Unibanco e o Wal-Mart, entre outras empresas.

Notícias da TV apurou que a carta da ABA e da Abap foram motivadas principalmente pela Coca-Cola. Em setembro, a emissora mostrou uma reportagem em todos os seus telejornais afirmando que o principal refrigerante da marca contém substâncias que podem "causar câncer" e que "falhas no processo de produção" podem trazer "danos irreversíveis" aos consumidores.

A reportagem era ilustrada pelo depoimento de um consumidor, o relojeiro Wilson Resende, que guarda uma garrafa de Coca-Cola com uma suposta cabeça de rato dentro. Ele processa a empresa desde 2000. Laudos encomendados pela Justiça, no entanto, revelaram que seria impossível o rato parar dentro da garrafa pet pelo processo de produção da Coca-Cola e levantam a suspeita de que houve fraude.

Pressionada, a Coca-Coca produziu uma campanha convidando consumidores a visitarem suas fábricas. E veiculou os anúncios na Record.

Na carta enviada à Record, a ABA e a Abap afirmam que respeitam a liberdade de expressão, que julgam saudável a não interferência do departamento comercial dos veículos em suas redações, mas que "essa liberdade de imprensa nem sempre é observada".


A Record não comentou o assunto.

Record usa jornalismo para atacar banco que se recusa a anunciar

Por DANIEL CASTRO, em 17/12/2013 · Atualizado às 06h20
A Record exibiu em novembro longas reportagens com pesadas denúncias contra o HSBC. Mais do que a missão de informar telespectadores, estavam por trás interesses comerciais da emissora. Tanto que as denúncias cessaram neste mês, depois que o banco enviou um emissário ao departamento comercial da Record, acertando uma trégua.
A Record já tem fama no mercado de usar seus telejornais para agredir grandes anunciantes que se recusam a programar campanhas publicitárias em seus intervalos. Antes do HSBC, fez o mesmo com Itaú, Unibanco, Santander, Coca-Cola e Wal-Mart, entre outras instituições.

O HSBC não colocou um centavo de publicidade na Record neste ano. A represália da emissora também veio de forma administrativa. A Record cortou o acordo que tinha com o banco para pagamento de funcionários. No mês passado, obrigou o HSBC a desativar um posto bancário em sua sede, na Barra Funda, em São Paulo, e a retirar todos os caixas automáticos de lá.

O primeiro ataque da Record surgiu no começo de novembro. Em uma reportagem de quatro minutos, a correspondente Heloísa Villela, de Nova York, relatou que o HSBC está sendo investigado na Europa por manipulação de taxas de câmbio. E que nos Estados Unidos já foi condenado por "abrir as portas para traficantes e terroristas".

Na metade de novembro, outra reportagem, produzida em São Paulo, divulgou que uma pesquisa do Procon "revela que o HSBC é o banco que mais aumentou os juros no cheque especial". Ilustrada pelo relato de um cliente endividado, a reportagem se espantava com a informação de que "a taxa de cheque especial [do HSBC] disparou: saiu de 9,90% para 9,95% ao mês" e que o banco "é um dos líderes de insatisfação de clientes". 

No final de novembro, Heloísa Villela retornou com a mesma denúncia do início do mês, sob a manchete "Autoridades da Europa investigam esquema de fraude em um dos maiores bancos do mundo". A reportagem durou três minutos.


Villela tomou o cuidado de trocar uma fonte da Universidade de Columbia por uma da Universidade de Nova York, mas a reportagem repetia informações e imagens da anterior. Até a "passagem" (quando o repórter mostra o rosto em uma reportagem) parecia ter sido feita em frente à mesma agência do HSBC.